note to self

2009 October 19
by s.

Então talvez seja uma espécie de sorte passar tão pouco tempo online, com tantos amigos presentes de-carne-osso-e-abraços, com os dias em menor número que as atividades, com a obsessão por checar a caixa de correio, com decisões que a gente não sabe direito por que toma, ou melhor, sabe, mas só depois, e não sabe como fazer para chegar lá no decidido. Talvez seja uma espécie de sorte só precisar decidir, e deixar ver o calendário tomar uma nova forma.

Assim como é uma espécie de sorte ter um casaco adequado para encarar o frio (do outono!!).

Assim como foi uma espécie de sorte acordar bem antes do despertador e, mesmo merecendo mais horas de sono e descanso inconsciente, passar a manhã lendo feeds, escrevendo e-mails e tomando chá verde.

Note to self: não esquecer a vida analógica, mas lembrar da digital.

minha vida offline está assim…

2009 October 1
by s.

E não é nem porque eu realmente comprei um colchão da Ikea, nem porque eu mudei de casa e por isso tive que comprar um colchão, nem porque tenho trabalhado tanto e mesmo assim mal consigo pagar as contas. É por tudo isso e mais um pouco.

Por isso que o blog está até fazendo eco.

Mas sempre que dá eu updato o Twitter, então, antes de brigar comigo, vai me seguir por lá. ;)

por que a água está acabando?

2009 August 20

É uma pergunta bastante legítima. Afinal, se as pessoas falam que é preciso economizar água, que água tem um custo, que água é o ouro azul, que estresse hídrico e o escambau… deve ser porque a água está acabando, não?

Eu até já tentei responder essa pergunta antes, mas acho que não fui muito feliz. Daí, é claro, eu abro a GOOD Magazine, especial de verão, edição da água, e vejo a resposta mais convincente e bem formulada que eu jamais poderia ter bolado.

Before the dawn of civilization, there were 326 million trillion gallons of water on Earth. Today, after millenia of population growth, industry and agriculture, there are still 326 million trillion gallons. Unlike other natural resources, we cannot run out of water.

But it doesn’t mean that we always will have enough of it when and where we need it or that we can’t make it too dirty to drink.

Aí você se pergunta: e que cargas d’água (desculpem, não resisti) eu tenho a ver com isso? Se eu tomo banho de 15 ou de 5 minutos, que diferença faz?

Em vez de tentar responder diretamente a essa pergunta, vou propor uma outra perspectiva. Quem fez esse comentário notável foi o pessoal da H2O Conserve, uma ong baseada aqui em NY que eu entrevistei para uma matéria da Exame. Segundo eles:

A água que usamos é extremamente subsiada. Pra falar a verdade, o preço que pagamos não reflete o produto em si, a água, e sim a infra-estrutura para levá-la de um lugar a outro.

A palavra-chave aqui é subsiadiada. Quer dizer, em poucas palavras, que se a água fosse vendida no livre mercado, seu preço seria muito, muito mais alto.

Se economizar um pouco de água significasse economizar um monte de dinheiro, não faria sentido tomar um banho mais curto ou adotar outras medidas pés-no-saco? Pois.

Cada dia mais eu me convenço de que sustentáveis mesmo são os mão-de-vaca.

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Mais posts sobre água? Aqui.

por que eu não dou esmolas, a não ser em NY

2009 August 18

Eu várias vezes quase levei o assunto para a terapia. Aliás, não sei por que não o fiz. Acho que assuntos mais importantes acabaram aparecendo na frente.

Mas o fato é que há um tempão eu decidi que não ia dar mais esmolas nem comprar bala no farol.

Talvez eu nunca tenha feito as pazes direito com essa decisão (daí a vontade vira e mexe de ver onde a terapeuta levaria o assunto). Não é das coisas mais fáceis ver um ser humano, muitas vezes sujo e mal cuidado, pedindo dinheiro. E ter o dinheiro e não dar. Mas o fato é que eu nunca voltei atrás.

Não por medo de ser enganada (“E se ele usar o dinheiro para comprar pinga em vez de comida?”). O que me vez dizer não à esmola de vez foi o livre mercado, foi a idéia de que se não tiver gente dando dinheiro de graça na rua, não vai ter gente pedindo dinheiro na rua.

* * *

Essa semana a Veja São Paulo fez uma matéria muito bem sacada sobre a vida de alguns pedintes de São Paulo. O gancho que puxa a matéria foi a aprovação de um projeto de lei que derruba o artigo que ditava que mendicância é uma contravenção penal com pena prevista de 15 dias a três meses. O autor, ex-parlamentar e atual secretário da Habitação de Guarulhos Orlando Fantazzini explica o projeto na matéria da Vejinha:

“Eu não dou [esmola], mas não fazia sentido punir alguém por ser pobre.”

E de alguma maneira a discussão na reportagem ainda evoluiu para o saudável debate sobre de-quem-é-a-responsabilidade-de-fiscalizar-se-os-mendigos-são-realmente-mendigos-ou-meros-falsários.

Haja.

* * *

Há alguns anos eu cruzei caminhos com uma teoria interessante. Quem me apresentou a ela foram os ilustres mancebos autores de Freaknomics, mas mais recentemente meu amigo Malcolm Gladwell também me falou dela em seu Tipping Point. É a teoria da janela quebrada. A idéia, simplificadamente, é que se você não releva as pequenas coisas, como uma janela quebrada, ou o lixo na rua, ou a mendicância, você acaba incentivando as grandes coisas, como a invasão de um prédio abandonado, o lixão irregular, os assaltos nos faróis.

A teoria da janela quebrada teve um papel importante na estratégia do prefeito Giuliani na diminuição do crime em NY no início dos anos 90.

* * *

A primeira vez que eu percebi que não gostava de dar dinheiro no farol foi quando começou a febre de garotos fazendo malabarismo com bolinhas de tênis. Mal-treinados e mal humorados, pagando de artistas, mas não se davam nem ao trabalho de fazer pose. Qualé? Eles chegavam na frente do meu carro e eu já dizia não com cara de brava antes de a primeira bolinha ir para o ar.

Quando cheguei aqui em NY me mantive firme na política de não dar esmolas. Um dia uma dupla de negões velhinhos entrou no vagão em que eu estava no metrô e começou a cantar uma música. De chapéu na mão, boca pra cima. Eu sorri quando o chapéu passou pela minha frente, mas mantive meus suados dólares bem guardados na bolsa. E passei o dia inteiro cantando o refrão da música dos velhinhos.

Daí eu comecei a me arrepender de não ter dado dinheiro nenhum. Eu tive um dia feliz cantando música na minha cabeça, e não devolvi o favor, fazendo o dia de alguém menos ruim.

Desde então eu sempre dou dinheiro para os artistas de rua pedintes — artistas ou não. Ou pelo menos para os que me dão alguma coisa, um sorriso, uma música, um contato, em troca.

são só palavras?

2009 August 9
by s.

 

Ando às voltas com um texto bem complicadinho. E importante.

Difícil, difícil.

Vou até ali me dedicar muito-muito e já volto.

uma idéia para o Kassab

2009 July 30

Os comentários do post sobre a marginal que me deixou pensando… Talvez o Kassab realmente tenha algo de coragem, apesar da óbvia miopia. Achei que não custa fazer a minha parte e dar uma sugestão:

Prefeito, esqueçe os fretados. Pega o telefone e liga para o Jaime Lerner.

O sistema de ônibus implantado por ele em Curitiba há sabe Deus quanto tempo já foi copiado por 83 cidades mundo afora. Entre elas, Bogotá. Minha amada revista GOOD chamou o sistema de ônibus urbanos de Botogá de “o mais moderno e high-tech do hemisfério ocidental.”

http://www.flickr.com/photos/scalejon/

http://www.flickr.com/photos/scalejon/

Uma dica: é mais rápido e mais barato de fazer que o metrô. A primeira fase lá entrou em ação em apenas 18 meses.

Até 2012, prefeito, dá pra fazer um excelente trabalho.

Quer saber mais? Clica aqui e lê o que a GOOD escreveu sobre o assunto.

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Você também tem uma sugestão para o prefeito? Assopra aí nos comentários.

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Quer saber mais-mais sobre trânsito? Aqui.

moletom de mãe

2009 July 30
by s.
http://www.flickr.com/photos/scalejon/

http://www.flickr.com/photos/scalejon/

Teve um dia que choveu muito. Eu tinha menos de dez anos, mas não sei precisar quantos. A gente estudava de manhã, e na hora da saída caiu o mundo. Uma chuva como nunca se viu. Eu não me lembro da chuva em si, mas eu me lembro de andar correndo, de estar encharcada, de entrar no carro num pulo, de rir. Essa talvez seja a minha primeira lembrança de chuva.

E eu me lembro que a gente chegou em casa e deixou de seguir a rotina, que era sentar para almoçar. A gente subiu correndo, e a mãe secou a gente, tirou a roupa molhada e trocou por uma seca. A minha era um moletom da mãe. Cinza, bem macio, era bonito até, tinha gola canoa e uma listra vermelha de cetim descendo do ombro até o fim da manga. Era muito confortável. Era cinza e macio e da mãe e de depois da chuva. E essa talvez seja a minha primeira lembrança de conforto. De repente era como se fossem seis horas da tarde (o céu já estava escuro) e a gente já estivesse pronto para dormir até amanhã de manhã. A gente não tinha fome nem nada, estava tudo completo, todo mundo estava seco.

Hoje choveu muito em Nova York. E eu não pude ficar em casa, vendo a chuva da janela. Andei para cima e para baixo, numa busca cansativa, munida só de guarda-chuva e botas. E fui voltando para casa bastante molhada. No caminho, fui antecipando a felicidade de chegar, baixar as sacolas em algum canto, descalçar as botas, ligar o abajur, folhear os livros e revistas recém-comprados, ouvir música. Não tinha mãe nem moletom de mãe, mas tem conforto.

É bom ter uma casa que se sente como casa.

mais fotos!

2009 July 22
by s.

Eu estou convencida, o Flickr descobriu a receita perfeita (so far) do modelo de negócio web. Tanto que euzinha, mão de vaca no último grau e sempre a favor da desinvenção do copyright, acabei de entregar 40 e tantos reais ao Yahoo!, dono do Flickr. Confiem quando digo, eu tentei resistir.

Tudo isso para dizer que, como minha conta no Flickr ganhou um upgrade, (eba!) agora prometo acabar com a escassez de fotos.

Passa lá pra ver.

http://www.flickr.com/photos/scalejon/

mais linques

2009 July 16

A mais recente edição da Good Magazine (ok, ok, em breve eu mudo o disco) é dedicada exclusivamente à questão da água.

Adote um vereador: A plataforma wiki é um pouco difícil de digerir, mas a idéia de acompanhar de perto a atuação dos vereadores é ótima e merece ibope (pode até render boas pautas, jornalistas). (via blog do Instituto Ethos)

Espanha proíbe sacolas plásticas. Ok, ok. A idéia é fazer uma redução gradual no uso de sacolas plásticas (via @marcelobazan).

20 idéias para salvar o mundo, do The Guardian. É um post grande, e cheio de sub-histórias (bom, há pelo menos 20 delas). Bom pra ler com calma. (via TreeHugger)

promessa é dívida: por que eu não gosto da ampliação da marginal tietê

2009 July 14

Eu imagino que para muita gente as obras de ampliação da Marginal Tietê devem soar como uma excelente notícia. Não pra mim.

O motivo primeiro e mais óbvio é: porque eu não preciso da Marginal. Felizmente. E não só porque atualmente estou morando em outra cidade… Mesmo em São Paulo eu tinha a sorte grande de não precisar passar por ali mais que uma ou duas vezes por mês.

Isso posto, aqui vão meus outros motivos:

Motivo #1: mais espaço para carros = mais carros.

Tem até um teorema matemático para explicar o caso, o paradoxo de Braess. Mas eu gosto de pensar nisso pelo contrário: para resolver o problema do trânsito, o mais eficiente é fechar a estrada. Duvida? Os caras do site The Infrastructurist analisaram 4 casos onde isso foi feito (Seul, Portland e duas estradas em São Francisco), todos com resultados positivos (clica, clica! As fotos dos antes e depois são ótimas!).

Como dizem meus amigos do blog da Good Magazine: “A lição é clara: Quando  uma grande estrada está fazendo uma cidade perder qualidade de vida, todos se beneficiam quando um político tem visão e coragem para derrubá-la.” Visão e coragem, Mr. Serra.

Vale ressaltar que o então prefeito de Seul que comandou a obra, Lee Myung Bak, é o atual presidente do país (e foi eleito com uma maioria avasaldora de votos). Tá bom pra você, Governador?

Motivo #2: 82 mil árvores e uma ciclovia não mudam nada.

Qualquer pessoa que já pasou pela Marginal Tietê já teve o desprazer de testemunhar a quantidade de fumaça que sai de qualquer caminhão que por ali passa. Nem vou tentar fazer as contas, mas 82 mil árvores não são capazes de compensar 5 minutos desse estrago. Francamente…

Quanto à ciclovia, você já ficou cinco minutos parado na beira da Marginal? Fora do carro, digo. Tentando esquecer por um minuto o volume desproporcional de poluentes, tem o barulho irritante e enlouquecedor dos milhares de motores acalerando juntos. Eu particularmente não sou muito dada ao ciclismo (traumas, traumas), mas tenho certeza que até para o mais ávido bicicleteiro, pedalar ao lado de dezessete faixas de automóveis não é o melhor dos passeios. Seguramente seria mais eficiente investir em melhorar e integrar as (parcas) ciclovias já existentes.

Motivo #3: transporte rodoviário é coisa do passado.

Ok, ok, está todo mundo feliz e contente com a descoberta do pré-sal. Mas isso não muda o fato de que o planeta está ficando cada dia mais quente e que em breve queimar combustível indiscriminadamente não vai mais ser tão fácil assim. Sem contar o peak oil, que vai tornar a coisa economicamente inviável.

Na minha adorada edição da Good Magazine (minha bíblia pessoal?) sobre transportes, tem uma matéria inteira sobre estratégias para incrementar e fortalecer o transporte coletivo. A sacada: conveniência é a palavra de ordem. Nas palavras deles: “Para tornar o transporte coletivo viável, é preciso fazer com que ele seja tão fácil quanto entrar no carro. E isso pode ser feito.” Entre as sugestões estudadas: frota compartilhada, planejamento de espaços de estacionamento, incentivo de carona…

Eu fico me perguntando: por que não usar esse 1,3 BILHÃO de reais em algo que continue fazendo sentido daqui a 20 anos?

Ah, sim, porque é preciso visão e coragem.