O boto cor-de-rosa
Eu adoro um mistério. Bastou me dizerem, quando a gente ainda estava em Tefé cuidando dos últimos preparativos, que encontraríamos botos nas águas da reserva e eu já comecei a assuntar. A primeira história que eu ouvi, ainda na mesa do bar da praia escaldante de Tefé, foi de uma comunidade situada dentro da reserva onde uma criança sumiu. Por alguns dias a comunidade levantou hipóteses, procurou culpados. Como a história não se resolveu, logo o boto levou a culpa e pelo menos houve um desfecho.
No primeiro dia de viagem pela reserva, a bordo do digníssimo Malandro, eu perguntei para James, o capitão das máquinas, o que ele achava sobre os botos. Ele me deu uma resposta bastante conclusiva, como vocês podem ver: “Tem gente que acha que eles são maus, tem gente que acha que eles são bons. Eu acho que eles são bichos.” No James era bom em dar essas respostas que não dizem nada.
Na primeira noite, a gente dormiu numa encosta mais ou menos no meio do nada mais ou menos assim:
Era um meio do nada muito do bonito: o paraná se abria numa piscina, cheia de jacarés, piranhas e… botos. Muitos botos. Dá pra saber porque eles fazem mais ou menos que nem os golfinhos: vira e mexe aparecem de passagem na superfície da água. Eles não são exatamente cor-de-rosa (droga!), mas têm uma cor escura que lembra pele de gente. E às vezes eles saem para respirar e fazem um barulho de gente engasgada. Eu comecei a entender porque tem tanta história sobre boto.
Até que chegou a hora de dormir, e eu e Juju fomos estrear nossas gloriosas redes e mosquiteiros. Apesar de o Malandro ter um camarote bem grande, com uma cama de casal e uma de solteiro (e com ar condicionado!), a gente achou por bem testar a experiência completa e dormir na rede no andar de cima. Bonito.
Tudo foi muito bem, até que um boto resolveu invadir meus sonhos e transformá-los em pesadelo. Os botos tinham amarradas nas costas umas imagens toscas de santos coloridos entalhados em madeira. Quando os botos passavam na flor d’água parecia que os santos estavam mergulhando de costas. Parecia que eles iam se afogar. Parecia que os botos queriam me fazer entrar na água para salvar os santos.
No segundo dia, a gente conheceu o Raimundo, funcionário da pousada que opera dentro da reserva. O Raimundo é de uma cidade próxima à reserva, Maraã. Quando eu perguntei o que o pessoal de Maraã acha do boto, ele me disse que por lá as pessoas “não dão muita confiança pro boto, não.”
Pois eu decidi que também não dou.


…eita meio do nada cheio de coisa linda!
Serena, conte para o seu pai o sonho com os botos e Santos e vejamos a interpretação dele. Certamente dará alguns parágrafos no seu blog.