por que eu não dou esmolas, a não ser em NY

2009 August 18

Eu várias vezes quase levei o assunto para a terapia. Aliás, não sei por que não o fiz. Acho que assuntos mais importantes acabaram aparecendo na frente.

Mas o fato é que há um tempão eu decidi que não ia dar mais esmolas nem comprar bala no farol.

Talvez eu nunca tenha feito as pazes direito com essa decisão (daí a vontade vira e mexe de ver onde a terapeuta levaria o assunto). Não é das coisas mais fáceis ver um ser humano, muitas vezes sujo e mal cuidado, pedindo dinheiro. E ter o dinheiro e não dar. Mas o fato é que eu nunca voltei atrás.

Não por medo de ser enganada (“E se ele usar o dinheiro para comprar pinga em vez de comida?”). O que me vez dizer não à esmola de vez foi o livre mercado, foi a idéia de que se não tiver gente dando dinheiro de graça na rua, não vai ter gente pedindo dinheiro na rua.

* * *

Essa semana a Veja São Paulo fez uma matéria muito bem sacada sobre a vida de alguns pedintes de São Paulo. O gancho que puxa a matéria foi a aprovação de um projeto de lei que derruba o artigo que ditava que mendicância é uma contravenção penal com pena prevista de 15 dias a três meses. O autor, ex-parlamentar e atual secretário da Habitação de Guarulhos Orlando Fantazzini explica o projeto na matéria da Vejinha:

“Eu não dou [esmola], mas não fazia sentido punir alguém por ser pobre.”

E de alguma maneira a discussão na reportagem ainda evoluiu para o saudável debate sobre de-quem-é-a-responsabilidade-de-fiscalizar-se-os-mendigos-são-realmente-mendigos-ou-meros-falsários.

Haja.

* * *

Há alguns anos eu cruzei caminhos com uma teoria interessante. Quem me apresentou a ela foram os ilustres mancebos autores de Freaknomics, mas mais recentemente meu amigo Malcolm Gladwell também me falou dela em seu Tipping Point. É a teoria da janela quebrada. A idéia, simplificadamente, é que se você não releva as pequenas coisas, como uma janela quebrada, ou o lixo na rua, ou a mendicância, você acaba incentivando as grandes coisas, como a invasão de um prédio abandonado, o lixão irregular, os assaltos nos faróis.

A teoria da janela quebrada teve um papel importante na estratégia do prefeito Giuliani na diminuição do crime em NY no início dos anos 90.

* * *

A primeira vez que eu percebi que não gostava de dar dinheiro no farol foi quando começou a febre de garotos fazendo malabarismo com bolinhas de tênis. Mal-treinados e mal humorados, pagando de artistas, mas não se davam nem ao trabalho de fazer pose. Qualé? Eles chegavam na frente do meu carro e eu já dizia não com cara de brava antes de a primeira bolinha ir para o ar.

Quando cheguei aqui em NY me mantive firme na política de não dar esmolas. Um dia uma dupla de negões velhinhos entrou no vagão em que eu estava no metrô e começou a cantar uma música. De chapéu na mão, boca pra cima. Eu sorri quando o chapéu passou pela minha frente, mas mantive meus suados dólares bem guardados na bolsa. E passei o dia inteiro cantando o refrão da música dos velhinhos.

Daí eu comecei a me arrepender de não ter dado dinheiro nenhum. Eu tive um dia feliz cantando música na minha cabeça, e não devolvi o favor, fazendo o dia de alguém menos ruim.

Desde então eu sempre dou dinheiro para os artistas de rua pedintes — artistas ou não. Ou pelo menos para os que me dão alguma coisa, um sorriso, uma música, um contato, em troca.

2 Responses leave one →
  1. 2009 August 18

    Mas dinheiro para artistas de rua é completamente diferente de esmolas!

  2. 2009 August 18
    Mami permalink

    Acho que vc quis dizer “…se você releva as pequenas coisas… acaba incentivando as grandes…” não será isso??

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